Uma história real de compulsão alimentar

O Transtorno de Compulsão Alimentar (TCA) é uma doença grave que pode ter um impacto negativo e significativo sobre quem a possui. É o tipo mais comum de transtorno alimentar e afeta quase 2% das pessoas em todo o mundo.

A HISTÓRIA DA CATARINA E AS SOLUÇÕES QUE ENCONTROU PARA CONTROLAR ESTA DOENÇA

Percebi que tinha compulsão alimentar aos 19 anos. Face a momentos pessoais mais duros, psicologicamente mais violentos — como a doença do meu pai — comecei a comer para encontrar alguma calma. A comida era um refúgio. Só que nessa altura eu não sabia que a minha fome era emocional. Achava que era normal. Que era só comilona.

As coisas foram, nos anos seguintes, acalmando. Anos depois, tive outra crise, que se reflectia num consumo recorrente e exagerado de grandes quantidades de comida que, fisicamente, se expressava num aumento de peso. Novamente, estava numa fase de vida difícil: desempregada, sozinha e com dois filhos.

No verão de 2017, voltei a entrar num ciclo de compulsão, depois de ter perdido aqueles 15 quilos e de ter tido um pós-parto maravilhoso. Entre Agosto e Março de 2018, engordei 8 quilos.

A compulsão emocional é assim: vai e vem, mas está sempre lá para nos apanhar quando estamos mais vulneráveis. Depois destes episódios de consumo exagerado, vem a culpa. “És fraca”, pensava. Mas não. Hoje, com distância, já consigo ver tudo com mais lucidez.

Vejo que esta doença se esconde por detrás do tabu: a sociedade olha para as pessoas que comem emocionalmente como comilonas descontroladas, como gulosas com falta de objectivos. Outra vez, não. E isso remete-nos para outra característica deste transtorno: não se trata de gula, porque o tipo de alimento não importa. A compulsão alimentar é um comportamento aditivo, semelhante a outros vícios – seja por álcool, por comprimidos, por qualquer outro tipo de droga: surge a necessidade, come-se, sente-se um alívio que se extingue muito rapidamente e depois vem a ressaca — o corpo reage aos exageros. Psicologicamente, a tal culpa, arrependimento, ansiedade. E voltamos ao início.

Não poderei fazer o trabalho por ninguém, porque isto está dentro de cada um de nós. Mas posso deixar-vos algumas dicas, que para mim foram fundamentais.

 

1.  CONHECER O PROBLEMA

O Transtorno de Compulsão Alimentar (TCA) é caracterizado por episódios repetidos de compulsão alimentar descontrolada e sentimentos de extrema vergonha e angústia. Geralmente começa no final da adolescência até o início dos anos 20, embora possa ocorrer em qualquer idade. É uma doença crónica e pode durar muitos anos

Para se caracterizar o TCA como doença, o padrão de episódios de descontrole alimentar deve recorrer pelo menos 1 vez por semana e estar presente continuamente durante 3 meses.
A descrição clínica do comer compulsivo é comer muito rápido num curto período de tempo com a sensação de perda de controle sobre o quê e o quanto se come. Contudo, há descrições mais amplas em que se torna difícil separar episódios claros de comer compulsivamente ao longo de um dia. Além disso, o indivíduo apresenta o sentimento de acentuada angústia por não conseguir controlar a sua alimentação, além de sentimentos de culpa, arrependimento e fracasso. A presença de sintomas depressivos e ansiosos costuma ocorrer também.

2. ACOMPANHAMENTO

A compulsão alimentar exige acompanhamento psicológico, seja em formato de coaching, psicólogo ou mesmo psicanálise. Existem poucas pessoas especialistas capazes de atuar neste transtorno alimentar. 

3.  OUTROS TIPOS DE TERAPIA

Há outras terapias que podem ajudar. No meu caso, treinar no lugar certo (com motivação e acompanhamento para que as hormonas estejam a nosso favor e não contra nós) e apostar na meditação tem sido fundamental.

4.ACOMPANHAMENTO MÉDICO

É preciso também acompanhamento médico para que se possa perceber se está tudo cá dentro. Somos seres feitos de muitos pormenores que podem influenciar estas coisas. Sem vergonha, sem medo, falar disso e pedir análises.

5.DORMIR BEM

Um dos maiores amigos da compulsão (e nosso inimigo) é o sono. É muito difícil controlar a compulsão em situações severas de défice de sono.

6.REDE DE APOIO CONSCIENTE

Não podemos oferecer um copo de vinho a um alcoólico em tratamento. Também não oferecemos um doce ou uma batata frita a alguém que sabemos ser compulsivo. Porque nunca será uma batata ou uma bolacha. Com tempo, em alturas mais calmas, isso será controlável, mas no início não.

7.CONHECER OS GATILHOS E ENCONTRAR UM MÉTODO ALIMENTAR ADEQUADO

Existem dezenas de gatilhos para a compulsão e cada pessoa tem que ter calma até encontrar a forma de alimentação que mais se adapta. Exemplos: Há mulheres que sujeitas a regimes muito rígidos e com a obsessão pelo corpo dão-se muito bem com a Dieta Flexível porque sentem que não estão limitadas e acalmam. Outras pessoas, como eu, precisam de manter os valores de açúcar estáveis e não estarem limitadas nas quantidades, por isso o Paleo funciona tão bem comigo.

Importante reter: não existe uma solução. Existem várias, pequenas e, às vezes, falham todas.

Mais: não somos fracas ou falhadas e não temos de ter vergonha. Somos uma máquina que precisa de ser afinada. E não há problema nenhum nisso. Somos infinitamente bonitas nas várias formas que um corpo tem.

Só o queremos saudável.

Catarina Beato - Blogger e Influencer

Escrito por:
Catarina Beato
Autora do blog Dias de Uma Princesa

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