Auto estima é muito mais que um número

Tenho ancas e rabo desde os 11 anos. Lembro-me bem do dia em que comprei o meu primeiro equipamento para educação física. Estava feliz e orgulhosa dos meus calções de licra e da minha t-shirt ligeiramente justa. Mas quando cheguei à escola, tornou-se evidente a diferença entre mim e as outras meninas: eu tinha formas de mulher e as minhas amigas não. As formas de uma mulher são belas, percebo hoje. Mas aos 11 anos não. Eu era “pesada”, eu era maior. Eu sentia-me diferente.

Nem sempre a relação com o meu corpo foi saudável. Enquanto crescia — o que incluiu duas gravidezes e a maternidade, durante muitos anos, como mãe solteira — ganhei muito peso, num processo de profundo descuido e desleixo. Isto incluía ser sedentária e comer este mundo e o outro (Nutella às colheres, mesmo). Não era por ter fome ou sentir gula. As motivações eram outras, vejo hoje: estava à procura de algum conforto. Até o encontrava, mas ele era absolutamente efémero e vinha sempre carregado de culpa. Solução? Voltar a comer. Era um ciclo vicioso, muito difícil de quebrar.

Há cinco anos a minha vida deu uma volta radical. Foi nesta altura que perdi muito peso, aventura que relatei no livro Dieta das Princesas.

Foi maravilhoso tudo o que aconteceu. É que este processo não foi só sobre perder. Ganhei muito. Ganhei amor ao exercício físico, aquele que guardo até hoje. Ganhei auto-estima. Ganhei auto-conhecimento. Fiz um grande exercício de introspecção, em que descobri que tinha esta relação aditiva com a comida, vício igual a tantos outros, mas do qual se fala tão pouco.

Fui dos 74 quilos aos 57. Neste mundo novo — o admirável mundo novo — descobri que comer bem pode ser bom. Descobri que com calma e paciência tudo se consegue. Descobri que o nosso corpo comunica connosco e nos fala sobre o que é que precisa — e sobre o que é que dispensa. Mas também descobri que a vida não é em linha reta, que as coisas não permanecem iguais para sempre. Descobri que tudo tem os seus tempos.

Eu adorei o meu corpo novo. Adorei ver como as roupas me ficavam. Adorei ver-me ao espelho, com as calças de ganga que finalmente pude usar, aquelas que salientavam as minhas novas formas. Eu estava feliz e a vida corria-me bem. Foi por esta altura que conheci o Pedro, que me apaixonei e que me casei. Pouco tempo depois nasceu a Maria Luiza.

Mas hoje eu continuo a descobrir coisas. Nos últimos tempos, e em poucos meses, numa altura mais difícil, recuperei os 15 quilos que perdi há cinco anos. Custou-me muito. Senti que tinha voltado ao início, que tinha perdido a batalha. Desapontei-me a mim própria e, consequentemente, parei de me mostrar nas redes sociais. Escondi-me.

Mas, enquanto voltava a aplicar os exercícios de auto-estima que aprendi nos tempos do admirável mundo novo, pus-me a pensar. Porquê? Porque é que havia de ter vergonha? Porque é que havia de me esconder e de compactuar com aquilo que acho que está errado, com aquilo que não quero transmitir aos meus filhos? Não podemos viver com medo do que os outros pensam de nós. Não podemos alimentar os estereótipos que limitam aquilo que é um corpo bonito. Um corpo bonito é uma noção tão, mas tão vasta. Há beleza em todos os corpos, desde que haja saúde. Isso, sim, é do mais valioso que há.

Os nossos quilos não determinam a nossa beleza. Não podemos viver com receio das expectativas dos outros. Se for para nos escondermos, que seja por nós, pela nossa própria timidez, e não por causa terceiros. O corpo é nosso. Não é dos outros.

Nos tempos do admirável mundo novo, aprendi o valor do agradecimento. Eu estou imensamente grata pela minha vida. Estou grata por tudo o que tenho aprendido, estou grata pelo caminho que pude percorrer. Estou grata pela minha família. Estou profundamente grata por todos termos saúde. Também estou grata pela nova e discreta barriguinha. A vida não se faz em linha reta. E ainda bem.

Catarina Beato - Blogger e Influencer

Escrito por:
Catarina Beato
Autora do blog Dias de Uma Princesa

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